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Medicina da UMinho fez 25 anos e quer criar um Centro Clínico Académico

Quando arrancou, a Escola de Medicina da UMinho foi pioneira ao pôr os estudantes em contacto com os doentes desde os primeiros anos, agora, renova-se, com currículo construído pelos alunos.

Os alunos de Medicina da EMUM têm um papel ativo na construção do curriculo do seu curso. Foto: Miguel Pereira

A Escola de Medicina da Universidade do Minho (EMUM) acaba de encerrar as comemorações dos seus 25 anos. Formar médicos era um dos objetivos iniciais da UMinho que, em 2024, celebrou 50 anos. A maneira de convencer a tutela, sempre reticente relativamente à abertura de novos cursos de Medicina, foi propor uma forma inovadora de ensinar, em que os alunos teriam contacto com doentes desde os primeiros anos da formação. O plano curricular inicial foi entretanto revisto e, no atual ano letivo, vão sair os primeiros graduados num sistema em que o próprio aluno tem um papel ativo na construção do seu percurso, em função dos seus interesses e aptidões. Com os olhos postos no futuro, o presidente da EMUM, Jorge Correia Pinto, sonha com a criação de um Centro Clínico Académico (do Minho) juntando a universidade, as unidades locais de saúde (ULS) do Alto Ave, Alto Minho e Braga e outros agentes ligados ao setor.

Há 25 anos, o Estado queria formar mais médicos, mas queria fazê-lo de forma diferente do que se tinha feito até aí nas “escolas médicas tradicionais”. A Universidade do Minho, com a sua ambição de implementar o curso, apresentou-se com “a motivação para inovar”, recorda Jorge Correia Pinto.

“Nas escolas médicas que existiam, os alunos só começavam a ver pacientes lá para o quarto ou quinto ano. Na UMinho, o contacto passou a ser muito mais precoce, iniciava-se logo no primeiro ou segundo ano. Naquela altura, isto era uma grande inovação, hoje já é normal”, conta o cirurgião pediátrico que preside à EMUM desde junho de 2022, tendo sido reconduzido para um segundo mandato, em julho.

Segundo o professor, este sistema apresentava duas grandes vantagens: era um instrumento de motivação para os alunos, que, em vez de só contactarem com doentes e doenças nos livros, passavam a ter um curso com uma componente mais prática; e dava uma formação humana mais sólida, através da relação com os doentes e com as suas famílias. Admitindo que está a ser juiz em causa própria, José Correia Pinto afirma que, “além da sólida formação técnico-científica, a marca dos primeiros médicos formados na UMinho era a componente humana”.

Ensino fora da caixa

Ana Ferreira é aluna do 6.° ano e reconhece que a escolha da EMUM, “depois de falar com colegas que estavam a estudar no Porto e aqui”, teve a ver com a existência de uma componente prática desde muito cedo. Dinis Moreira é aluno do 1.° ano e, no seu caso, a ida para a EMUM também foi uma escolha deliberada: “Aqui o ensino não está dividido pelas tradicionais disciplinas – Anatomia, Fisiologia, Farmacologia -, as unidades curriculares focam-se nos sistemas – respiratório, nervoso, digestivo, cardiovascular -, esta forma de ensinar dá uma perceção melhor do corpo humano, do que se colocarmos tudo “em caixinhas””.

Desde há cinco anos, o ensino na EMUM tem passado por uma renovação que visa adequar os métodos pedagógicos aos novos tempos. “Antigamente, ensinávamos os alunos a procurar, hoje, o problema já não é o acesso à informação. É preciso ensiná-los a filtrar aquilo que lhes chega e a distinguir o que é verdadeiramente útil. Temos de ter especial atenção ao que se apresenta com verosimilhança, mas que não está validado pela comunidade científica”, refere o professor. Neste novo modelo, os futuros médicos são chamados a desempenhar um papel ativo na construção do seu currículo. “Um aluno que goste muito de informática pode desenvolver o seu curso com mais foco nessa área, logo desde o primeiro ano”, exemplifica Jorge Correia Pinto.

Imaginar o futuro

O presidente da EMUM faz questão de sublinhar que “a escola não é de Braga, é da Região do Minho”. O ensino clínico esteve, desde a fundação, apoiado nos hospitais de Braga, de Guimarães e Viana do Castelo e nos centros de saúde das respetivas ULS. “Os nossos estudantes passam tempo nas várias ULS e ficam a conhecer a realidade clínica do Minho com profundidade. Por termos mais do que um hospital envolvido no ensino, conseguimos ter um rácio estudante/mentor mais reduzido”, destaca Jorge Correia Pinto. “Falta, agora, dar forma a esta experiência”, aponta.

Jorge Correia Pinto, presidente da EMUM, tem a ambição de criar um Centro Clínico Académico no Minho. Foto:Rui Dias

No futuro, o presidente da EMUM gostaria de materializar as diversas relações entre a instituição e os municípios, empresas do setor, spin-offs da escola, hospitais, centros de saúde e associações de doentes, num centro clínico académico. O objetivo é multiplicar boas práticas como a parceria com a Karl Storz (líder em tecnologia endoscópica) que permitiu criar um polo de inovação e treino médico em cirurgia minimamente invasiva, na EMUM.

“Adiar ocurso foi um erro gravissímos que o país está a pagar”

A Comissão Instaladora da Universidade do Minho foi constituída em 1974 e tinha, desde a primeira hora, inscrito como um dos seus objetivos a criação de um curso de Medicina. Contudo, foram precisos 25 anos para que esse desiderato inicial se materializasse.

Entre os obstáculos ao aparecimento de um curso de Medicina na Universidade do Minho terão estado, entre outras contrariedades, a vontade de abrir um segundo curso na cidade do Porto, refere Licínio Chainho Pereira, que fez parte da comissão instaladora da UMinho e era reitor da academia (1998-2002) quando o curso finalmente arrancou.

Na cerimónia de comemoração dos 25 anos do curso, o ministro da Educação, Ciência e Inovação, Fernando Alexandre, reconheceu que o adiamento da abertura da formação em Medicina na UMinho “foi um erro gravíssimo”. Para o ministro, é claro que o país está a pagar, atualmente, a fatura da decisão de atrasar a abertura do ensino de Medicina na UMinho.

Há 25 anos, a persistência da UMinho acabou por convencer a tutela, principalmente porque a academia minhota se propunha lançar um curso diferente, muito influenciado pelos modelos anglo-saxónicos.O nome de Joaquim Pinto Machado fez parte da Comissão Instaladora da Universidade e mais tarde regressou para integrar o grupo que criou a Escola de Ciências da Saúde, que viria a tornar-se na EMUM. São dele as palavras escolhidas pelo Núcleo de Estudantes da UMinho como lema: “Sou médico: nada do que é humano me é estranho enquanto médico”.

Esta reportagem foi publicada nas edições online e em papel do Jornal de Notícias de 22 de dezembro de 2025.