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“A Capital Verde deve servir para fazer de Guimarães uma capital da qualidade de vida”

Ricardo Araújo já tomou posse como presidente da Câmara de Guimarães.

Ricardo Araújo tomou posse como presidente da Câmara Municipal de Guimarães e é o primeiro edil não socialista da Cidade Berço em 36 anos. Ganhou as eleições, com maioria, fazendo propostas mais contidas que o seu adversário do Partido Socialista (PS).

Promete “vencer a inércia”, construindo as 400 casas que já estão contratualizadas e, pelo menos, pôr em andamento, as soluções para problemas de trânsito como o acesso da variante de Creixomil à EN206 e acesso de veículos prioritários ao hospital. A pedonalização do centro não avançará contra os comerciantes e vai depender da criação de estacionamento de proximidade.

O PDM não aprovado, que Domingos Bragança lhe deixa como herança, pode ser uma limitação para a ambição de criar mais zonas industriais e de libertar mais terrenos para a construção de habitação.

Acreditava que seria possível ganhar a Câmara de Guimarães, nas circunstâncias em que aconteceu, com seis vereadores, contra quatro do PS, que liderava o Município, desde 1989? 

Sabia que era difícil, porque 36 anos de governação socialista não se derrubam por acaso, mas também sempre disse que era possível, se apresentássemos um projeto claro, metas concretas e mobilizássemos os vimaranenses. Trabalhámos muito para isso e conseguimos maioria absoluta. O resultado da nossa ação é muito claro, é histórico e não deixa qualquer margem para dúvidas.

Os vimaranenses quiseram a mudança, as nossas propostas mereceram a confiança da maioria dos nossos concidadãos e isso, naturalmente, enche-nos a todos de orgulho, mas simultaneamente de muita responsabilidade.

O PS continua a ser a força política com mais presidentes de junta de freguesia, no concelho. Na sua opinião, o resultado pode traduzir mais uma rejeição do candidato do PS, Ricardo Costa, do que uma vitória clara da coligação PSD/CDS-PP? 

Nós passamos de 11 para 25 Juntas de Freguesia conquistadas no concelho e no global da votação para as assembleias de freguesia, de 32 para mais de 41 mil votos. A vitória na Câmara Municipal é uma mensagem autónoma das juntas de freguesia, porque clara e objetivamente, como mostram os resultados eleitorais, os cidadãos sabem distinguir o voto para as freguesias, para a Assembleia Municipal e para a Câmara.

Os resultados comprovam ainda que em democracia não há vencedores nem derrotados antecipadamente. A vitória com maioria absoluta na Câmara foi uma vitória clara da humildade, da determinação e de uma visão e projeto que apresentamos para Guimarães.

Já sabe que pelouros vai chamar a si e qual vai ser a distribuição dos restantes? 

Oportunamente comunicarei os pelouros e responsabilidades dos vereadores, sendo já certo que ficarei com a área do Desenvolvimento económico e da Capital Verde Europeia.

Na oposição, foi crítico da política fiscal do PS. Agora que é presidente, vai baixar os impostos? Quais e para que valores? 

Sim, defendemos uma política fiscal mais amiga de famílias e empresas. No nosso programa comprometemo-nos a reduzir a taxa de IRS municipal de 5% para 4%, fixar o IMI no mínimo legal (0,3%) e reduzir a derrama para 1%. Serão medidas concretas e responsáveis, que iremos materializar, articuladas com o orçamento municipal e com a obrigação de manter a qualidade nos serviços públicos, ao longo do mandato.

Uma das críticas que fazia à governação socialista, enquanto vereador da oposição, estava relacionada com a perda de atratividade do Município, a saída de empresas para outros concelhos e a perda de população. Que medidas é que vai tomar nesta área, no curto e no médio prazo?

Precisamos de uma nova política económica municipal, melhorar a Mobilidade e aumentar a oferta de Habitação. No plano da economia, temos de elaborar de imediato um plano estratégico que será posteriormente implementado através de uma nova agência dedicada a esta área e à captação de investimento.

Promover a ligação entre as empresas e os centros de conhecimento, nomeadamente universidades e politécnicos com o mundo empresarial é fundamental para que Guimarães seja uma referência enquanto cidade de inovação e promover a diversificação económica.

Precisamos de mais terrenos e parques para acolhimento empresarial. Por outro lado, aumentar a oferta de habitação pública e privada é determinante para fixar e atrair pessoas.

Apesar de ter sido Capital Europeia da Cultura em 2012 e de se orgulhar da sua marca nesta área, Guimarães aparece no Ranking da Competitividade, na categoria “Cultura e Entretenimento”, em 112º lugar (de 186 municípios). O que é que Guimarães tem de fazer para alterar esta divergência entre a percepção e os dados objetivos na área da Cultura, onde gasta muito dinheiro? 

A aposta na área cultural é para continuar. Temos de melhorar a programação, reforçar o incentivo à criação e produção artística, insistir na formação de públicos e atração de visitantes.

Paralelamente temos de valorizar e apoiar o nosso tecido associativo cultural, a nossa etnografia, tradições e festas populares.

O Município de Guimarães não tem sido capaz de executar as verbas que tem disponíveis para construir habitação a custos controlados. Vai alterar este cenário? Quantas casas é que a Câmara vai construir (construção pública) neste mandato? 

Comprometemo-nos a inverter essa inércia. O nosso programa prevê concluir os 400 fogos já contratualizados ao abrigo do programa 1.º Direito e promover a construção de novos fogos a custos controlados durante o mandato.

Este é um objetivo que será perseguido com parcerias público-privadas, cedência de terrenos municipais e agilização administrativa.

De que forma é que pensa que a Câmara Municipal pode influenciar os promotores privados para construírem a preços mais acessíveis? Vai implementar medidas nesse sentido? 

Vamos usar instrumentos práticos que podem incluir cooperativas, parcerias publico- privadas, cedência e aquisição de terrenos municipais que possam ser colocados no mercado, exigindo percentagem de fogos a preço controlado, incentivos fiscais limitados a ofertas concretas e mais acessíveis para as pessoas e aceleradores de licenciamento para projetos que reservem habitação a custos controlados.

Também iremos lançar mão de programas de reabilitação com incentivos para arrendamento a preços controlados e instrumentos de co-investimento. 

Da planta de estudos efetuados para o BRT não consta uma nova ponte sobre o rio Ave. O ‘metrobus’ vai ter uma ponte dedicada sobre o rio Ave, ou os veículos vão fazer a travessia na ponte que atualmente existe nas Taipas? Acha possível o ‘metrobus’ circular na EN101, como está previsto, sem criar mais constrangimentos a uma via já saturada? 

Não conheço ainda com detalhe o projeto, ainda não é do conhecimento público, reservando por isso para breve uma resposta mais consistente.

No entanto, como sempre referi, o sucesso do ‘metrobus’ exige uma via dedicada e exclusiva.

Concretamente quanto ao desvio da variante de Creixomil para a EN206 e à entrada direta da circular da cidade para o Hospital, está em condições de se comprometer com a resolução destes dois problemas, nos próximos quatro anos? 

Ambos são dossiers prioritários, designadamente a criação de via de acesso da variante de Creixomil à EN206 e a entrada direta para o Hospital é uma reivindicação antiga e integrada no nosso programa de mobilidade.

Comprometo-me a priorizar estes projetos junto das entidades competentes e a integrar as soluções no plano de investimento do mandato com o objetivo de resolver as fases de projeto, financiamento e lançamento da obra ao longo do mandato.

Claramente, espero ter estas obras concluídas neste mandato.

A circular de Guimarães é para fechar? Se sim, será ainda neste mandato? Se não, com que argumentos? 

Fechar a circular urbana carece de fundamentação e estudo técnico de viabilidade, que permita depois avaliar o interesse e prioridade desse investimento.

Vai avançar com a pedonalização de mais ruas do centro? Quais? O caso concreto da avenida D. João IV, vai avançar a ideia de uma via de velocidade reduzida, partilhada entre carros, transportes públicos, ciclistas e peões, como tinha anunciado o seu antecessor? 

A pedonalização da parte de cima do toural e da Rua de Santo António não vai avançar para já. Há muito a resolver antes de avançar para uma solução dessas, nomeadamente criar alternativas de estacionamento de proximidade. Esse é um processo que exige ponderação e critério, e que nunca pode ser feito à custa das pessoas, do comércio local e da dinâmica que desejamos para a cidade.

Relativamente à requalificação da Avenida D. João IV, quero saber primeiramente o ponto de situação em que se encontra.

O novo edifício do Campus da Justiça, segundo a ministra da Justiça, só estará pronto em 2031. Em face desta demora de seis anos, não teme que Guimarães possa perder valências judiciais para Famalicão, como já foi aventado? 

Qualquer atraso preocupa-nos sempre. Vou acompanhar o processo junto do Governo, com pressão institucional e diálogo para acelerar o processo e garantir que Guimarães mantém as suas valências judiciais até à conclusão do Campus da Justiça.

Guimarães, Braga, Famalicão e Barcelos vão ter câmaras lideradas por coligações PSD/CDS-PP, nos próximos quatro anos, na mesma altura em que estará no Governo da República a mesma coligação de partidos. Já falou com os seus homólogos sobre a possibilidade de explorar esta coincidência para alavancar a região? 

Defendo um governo municipal que tenha capacidade de concertar com os nossos vizinhos objetivos e interesses regionais. Terei, seguramente, encontros de trabalho com Braga, Famalicão e Barcelos para coordenar posições que reforcem a voz da região junto do governo e das instituições europeias, em torno de objetivos que transformem a nossa região e a tornem mais competitiva em áreas como a mobilidade, economia, investigação, por exemplo. Essa cooperação será prática e programática, não meramente simbólica.

Temos claramente uma grande oportunidade pela frente de transformarmos a região e torná-la mais atrativa e competitiva.

No próximo ano, Guimarães será Capital Verde Europeia. Que valor é que atribui a esta distinção e de que forma é que pensa que poderá servir a sua estratégia de promoção do concelho?

A distinção de Capital Verde Europeia 2026 é uma oportunidade estratégica que transforma reconhecimento em ação. Vamos usar o ano de programação para acelerar projetos de eficiência energética, economia circular, qualidade do ar, biodiversidade e mobilidade sustentável, mas também para atrair mais financiamento europeu, promover Guimarães como destino verde e inovador, envolver os cidadãos, empresas e a universidade.

Esta tem de ser mais uma alavanca de promoção externa e de melhoria tangível da qualidade de vida interna. Quero que a Capital Verde Europeia ajude a transformar Guimarães numa Capital Europeia de Qualidade de vida. 

Esta entrevista foi publicada na edição do jornal online O Minho, de 25 de outubro de 2025.